Carregadores, permissões, equipamento, papelada e clima no tepui de 2.810 metros na fronteira com a Venezuela: as decisões que definem uma expedição ao Monte Roraima
O Monte Roraima chega a 2.810 metros no ponto em que Venezuela, Brasil e Guiana se encontram. O platô de arenito no topo, com 33 a 50 km², se formou há 1,8 bilhão de anos. Quando as camadas superiores erodiram, há 180 milhões de anos, sobrou o tepui Roraima que você vê hoje, com paredões retos de 400 a 1.000 metros e uma mesa de pedra pendurada no céu.
A geologia dita a logística. 85% da montanha estão na Venezuela (10% na Guiana e 5% no Brasil), e todo trekking sai de Paraitepuy, uma aldeia Pemón do lado venezuelano. O lado brasileiro fica dentro do Parque Nacional do Monte Roraima e da Terra Indígena Raposa Serra do Sol, onde a subida exige escalada técnica na parede e autorização prévia do ICMBio. Resultado: a viagem começa muito antes da trilha, na fronteira, nas permissões e na escolha dos guias.
O PlanetaEXO, plataforma de ecoturismo especializada em viagens ao Monte Roraima, reuniu 10 dicas de viagem relacionadas a carregadores, permissões, equipamento, clima e papelada, cada uma com o número que a sustenta. Confira abaixo!

1. Contrate carregadores das comunidades Pemón
A primeira dica de viagem no Monte Roraima é contratar carregadores particulares em Paratepuy antes mesmo de pisar na trilha.
Ao longo do itinerário de 10 dias, a extensão percorrida é de aproximadamente 90 quilômetros, alternando caminhadas diárias de 6 a 15 quilômetros no topo do platô. Além disso, grande parte das agências estabelece o limite de 15 quilos para a bagagem individual.
Os carregadores do Monte Roraima vêm das comunidades Pemón, que vivem nas terras cortadas pela trilha. Ao contratar quem é da região, você sustenta diretamente a aldeia que administra o acesso à área. Turismo de base comunitária é exatamente isso.

2. Reserve a viagem ao Monte Roraima com uma operadora que resolve trâmites de fronteira
A rota prática passa pelo Brasil. De Boa Vista, são 220 km (cerca de 3 horas) pela BR-174 até Pacaraima, a única travessia rodoviária entre os dois países. De lá, siga para Santa Elena de Uairén, na Venezuela. A caminhada só começa em Paraitepuy, mais 100 km de 4×4 atravessando a Gran Sabana.
Regularize o visto para o Monte Roraima com antecedência, já que isso pode impactar todo o planejamento do roteiro. A Venezuela exige certificado de febre amarela de quem chega do Brasil ou passa mais de 12 horas em aeroporto brasileiro, enquanto as regras de visto variam conforme a nacionalidade.
Quem tem passaporte britânico, canadense ou australiano costuma entrar sem visto e ficar até 90 dias. Já os cidadãos dos Estados Unidos solicitam um e-visa e pagam uma taxa de US$ 180, ainda que o Departamento de Estado americano mantenha o alerta nível 3, “reconsidere a viagem”, para o território venezuelano.
Operadoras especializadas no Monte Roraima resolvem as formalidades de fronteira e qualquer outra burocracia que apareça, cuidando também de todos os traslados. É o que garante conforto, tranquilidade e segurança.
👉 Leia mais:
- Preciso de visto para visitar o Monte Roraima na Venezuela?
- É seguro viajar para o Monte Roraima na Venezuela?

3. Leve proteção para a chuva
Com chuvas anuais acima de 1.500 mm, o clima no topo do Monte Roraima difere do vale. A janela mais seca vai de dezembro a abril, mas há pancadas de chuva o ano todo. Mesmo na alta temporada, é comum ter manhãs de sol, tarde nublada e chuva à noite.
Pesquisando sobre as caminhadas guiadas, você provavelmente vai esbarrar na tal chuva invertida: ventos ascendentes intensos, que chegam a 75 km/h, capazes de suspender a água antes mesmo de atingir o solo, projetando-a de volta para cima.
Na hora de decidir o que levar para o Monte Roraima, pense na água. Jaqueta impermeável é ideal para o corpo, enquanto capa de mochila e sacos estanques protegem os seus pertences, incluindo saco de dormir e eletrônicos. Em acampamento selvagem, preservar o equipamento é o que salva a experiência. Complete com meias extras e uma toalha de microfibra.

4. Treine para La Rampa, não para a distância
No Monte Roraima, quantos quilômetros de trilha você encara? A rota se divide em etapas bem diferentes:
- Paraitepuy até o acampamento do rio Kukenán: 15 km em 4 a 5 horas.
- Rio Kukenán até o Acampamento Base: 8 km e 750 metros de subida.
- Subida por La Rampa: uma saliência natural vence a parede e é o único caminho não técnico até o platô do topo, com 4,5 km em 4 a 5 horas.
- Exploração do platô do topo: distâncias diárias de 6 a 15 km.
Portanto, o foco do treino para o Monte Roraima deve ser a inclinação, e não a quilometragem. A chave é ganhar elevação repetidamente e carregar peso sobre superfícies úmidas.
Para se preparar, comece o treino dois meses antes com caminhadas inclinadas usando mochila carregada, corrida ou pedalada. Foque no fortalecimento de pernas e tornozelos, visto que pedras escorregadias e travessias de rios exigem mais das articulações do que a altitude do sistema respiratório.
A dificuldade do Monte Roraima não é técnica: na via padrão não existe corda, cadeirinha nem trecho de escalada com grau. Com preparo, quem caminha razoavelmente bem termina a travessia.
👉 Leia mais: Qual é a dificuldade da subida do Monte Roraima?

5. Saiba o que há no topo do Monte Roraima antes de pisar no platô
O sapinho de Roraima (Oreophrynella quelchii) não passa do tamanho de uma unha e só vive entre 2.300 e 2.800 metros, neste cume e no vizinho Wei-Assipu-tepui. Achá-lo exige guia experiente, que saiba exatamente onde procurar.
A planta-jarro Heliamphora nutans foi a primeira do gênero registrada pela ciência, identificada nas encostas da montanha por Robert e Richard Schomburgk em outubro e novembro de 1839. Fora do Roraima, a espécie só resiste no Kukenán, Yuruaní, Maringma e Wei Assipu, ou seja, é exclusiva desse grupo de tepuis.
Os cumes dos tepuis abrigam ecossistemas únicos, com cerca de um terço de flora endêmica, segundo o WWF. Apesar do isolamento das terras baixas há 70 a 90 milhões de anos, um estudo de 2012 com pererecas revelou um ancestral comum de 5,3 milhões de anos, provando que algumas espécies superam esses paredões. Para preservar esse ecossistema, ande apenas sobre a rocha e não pise na vegetação.
👉 Leia mais: 10 fatos sobre o Monte Roraima

6. Leve equipamento com classificação para 0°C
Uma das principais dicas de viagem para o Monte Roraima envolve o clima, um dos principais desafios do trekking.
A jornada inicia aos 25°C na savana, cai para 5°C nas noites da subida e fica em 10°C durante o dia no topo. Com chuva e vento à noite, a temperatura chega a 0°C. Essa oscilação surpreende quem vem preparado apenas para o clima tropical.
Para montar o equipamento, priorize um saco de dormir com classificação para 0°C, acompanhado de um isolante térmico. Inclua também botas já amaciadas, bastões de caminhada para a descida e uma lanterna de cabeça com pilhas reservas.
O acampamento no Monte Roraima é sempre em barraca, nas áreas demarcadas ao longo do platô. Muita gente dorme sob os abrigos naturais de rocha, que mantêm chuva e vento longe, mas não protegem da umidade gelada que sobe do chão de pedra.
Como não existem pontos de venda no platô durante toda a expedição, traga garrafa própria e purificador de água para consumir das fontes naturais do topo.

7. Divida a bagagem em compartimentos à prova d’água
Guarde tudo em sacos estanques e deixe protetor solar, lanches e câmera em um bolso externo, sempre à mão. Distribua bem o peso: o que é pesado vai encostado nas costas, para a carga ficar sobre o quadril e não nos ombros.
Depois, tire peso da mochila. Cada grama sobrando vira castigo em La Rampa, a roupa não usada é o arrependimento mais comum da trilha. Em vez de vários conjuntos, leve camadas que se repetem e combinam entre si. Lembre-se de que não há como secar roupas molhadas no acampamento.
Documentos e dinheiro viajam à parte, no próprio saco estanque. Você precisa de passaporte com validade mínima de seis meses, do certificado de febre amarela e de dinheiro em espécie.

8. Trilha sem sinal e o que volta com você
Quem faz trekking no Monte Roraima fica sem escolha: não há internet no tepui. Entre Paraitepuy e a descida, você passa vários dias offline, então avise em casa que vai ficar desconectado por um tempo.
Ficar off muda o jeito de registrar a viagem: em vez de atualizar o feed, você escolhe o que vale guardar. Entre os pontos marcantes do platô estão o Vale dos Cristais, o Lago Gladys, o mirante La Ventana, o marco de fronteira do Ponto Triplo, El Foso e o Maverick Rock (o ponto mais alto do cume, a 2.810 metros). Como frio e umidade acabam com a bateria em poucas horas, guarde os power banks nos sacos estanques e durma com as pilhas reservas dentro do saco de dormir.
Um diário de papel resiste a condições que danificam um celular e registra o que as fotografias não conseguem capturar. Pense na sua jornada como parte de uma comunidade global de exploradores. Cada imagem, anotação e troca de mensagens com outros caminhantes faz parte da história que você contará quando voltar para casa.
👉 Leia mais: Como chegar ao Monte Roraima?

9. Estude a história e a cultura local
“Tepui” quer dizer “casa dos deuses” em Pemón. Já o nome “Roraima” vem de roroi (azul-esverdeado) e ma (grande). Na cosmologia Pemón, essa mesa de pedra é o toco da árvore mítica que guardava todos os frutos do mundo até Makunaima derrubá-la, história que batiza a Expedição Makunaima de 10 dias do PlanetaEXO.
Na Venezuela, você atravessa território Pemón, acompanhado por guias e carregadores também indígenas. Do lado brasileiro vivem os Ingarikó, dentro do Parque Nacional do Monte Roraima e da Terra Indígena Raposa Serra do Sol, e dividem a região com os povos Macuxi, Wapichana, Patamona e Taurepang.
Por não fazer parte da rota turística tradicional, o lado brasileiro do parque, estabelecido em 28 de junho de 1989 e cobrindo 116.747 hectares, conta, desde 2005, com uma gestão compartilhada entre o ICMBio, a FUNAI e o povo Ingarikó.
A primeira subida registrada é de 18 de dezembro de 1884, feita por Everard im Thurn e Harry Perkins, com o apoio de guias locais que provavelmente já conheciam o topo muito antes. Mergulhar nessa história muda o que você enxerga no platô e rende ótimas conversas ao longo da trilha.
👉 Leia mais: O que existe no topo do Monte Roraima?

10. Deixe folga no planejamento
Três coisas mudam nessa rota, independentemente do planejamento: o clima, a fronteira e o ritmo da pessoa mais lenta do grupo.
A definição de quantos dias no Monte Roraima são necessários varia conforme a sua intenção de exploração no platô. A exigência física diária permanece equivalente nas opções disponíveis; a diferença fundamental reside no tempo de permanência na altitude superior a 2.700 metros.
- Expedição de 8 dias: proporciona três pernoites no cume, cobrindo atrações como as Jacuzzis, o mirante La Ventana e o Maverick Rock.
- Expedição de 10 dias: acrescenta mais duas noites no topo, permitindo alcançar o Ponto Triplo, o Lago Gladys e vivenciar uma pernoite em comunidade indígena.
- Expedição de 12 dias: oferece uma vivência ainda mais extensa e aprofundada ao longo do itinerário.
O clima na montanha é imprevisível: chuvas fortes, nuvens densas ou abrigos lotados podem mudar seus planos. Por isso, deixar dias livres na agenda ajuda a transformar imprevistos em boas lembranças da expedição.
👉 Conheça a aventura: Expedição ao Monte Roraima: trekking de 12 dias saindo de Boa Vista

Dicas de viagem para o Monte Roraima na prática: planeje sua expedição com o PlanetaEXO
Agora que você já tem as dicas de viagem para o Monte Roraima que realmente fazem diferença na trilha, é hora de escolher as datas e montar o roteiro.
O PlanetaEXO é uma plataforma de ecoturismo especializada em trilhas e trekking no Brasil. Operamos essa rota saindo de Boa Vista, com guias Pemón e parceiros que cuidam da travessia de fronteira, das permissões e dos acampamentos, para você só curtir a caminhada. Fale conosco!
